faz tempo que não escrevo sobre estratégia de card games. pensando nisso, resolvi colocar nesse post alguns casos que me lembro bem sobre uma técnica muito efetiva em jogos que possibilitam escolhas complexas: como identificar o que o oponente quer, e como fazer exatamente o oposto, ou como negar a ele aquilo q ele espera q vc faça.
pra começar, vou colar aqui um trecho de uma partida que consta no meu report do territorial de 2004 contra o Thiago Cardoso, e vou destacar um trecho para ilustrar do que eu estou falando.
Game 3 – Thiago Cardozo (Elven Gondor/ Dunland site control)
He bids zero to my two as he knew I played easterlings… I let him start, since I knew his fellowship was the Vegas Winner one, so I though it was threat nazgul… he plays Aragorn ranger of the north and anduril FotW, Gwemegil, Elrond, and exerts Elrond twice to make my possessions and conditions +4 (hate you…).
... I stop, he plays the son of hamfast, don´t remove the burdens, move to four, I play captain and polearm, and army. He Secret Sentinels my Small Hope, and Secret Sentinels my Small Hope again. he assigns Captain to Frodo and Army already one wounded to arwen, not so much twilight remain. Kills Frodo, toss green ring to sam, zero burdens, and kill army with arwen. Fierce captain wounds arwen. He stops.
... He plays Vilya and moves into five, burdens or hand, I play a captain fully equipped, he dumps his hand with a faramir son of denethor (there are more where this one came from), captain gets gondor bowmed and he stops.
A shadow dele não conseguiu achar as Hides e o Over the Isen a tempo, e eu venci a partida, mas fica nítido aqui, nas partes negritadas, que o Thiago fez tudo certo no lado da fellow. A base de um deck de Beasterlings é ter dois burdens no ringbearer, e ele desde o site 4 exerceu pressão constante sobre a minha estratégia de shadow, me obrigando a escolher correr com a fellow. A jogada mais drástica e fora do comum aqui foi o descarte do Faramir SoD, que é uma carta chave nesse matchup (o deck dele tinha duas cópias), não só para negar twilight do 4 para o 5, mas tb para negar os burdens do site descartando a mão.
Nessa partida, me lembro bem, eu fiquei chocado com as escolhas dele, e aprendi muito sobre como surpeender o oponente e, principalmente, como negar ao adversário aquilo que ele mais quer.
Dito isso, vou relatar outros dois casos que aconteceram comigo, que, infelizmente, não encontrei registrados na Internet.
Primeiro caso - vs. Sarumanderson, Torneio Arraial do Bilbo, Devir
Sarumanderson jogava com uma fellow de elfos com uma shadow de sauron besieger. Eu jogava com meus ents, a shadow não me recordo.
Como eu identifiquei o que ele queria: semanas antes, jogando contra o Junior da ABR, eu tomei uma surra memorável com meus ents contra besiegers, tudo pq a shadow do Junior era especialmente eficaz contra fellowships grandes, que davam muitos pontos, e tinham mais de cinco companions. Sauron sempre foi uma cultura que se dá bem contra fellows grandes, e naquela época já havia sido lançado o Gorgoroth Swarm. O Junior era especialista em fazer decks counter de meta dominante, característica fundamental pra qualquer dono de loja que venda singles, suponho...
O Junior utilizou os primeiros sites para baixar conditions e alguns minions aparentemente inofensivos, e após minha fellowship explodir em companions e twilights ele utilizou uma chain de gorgoroth swarms e os mesmos minions não mais inofensivos para dizimar minha fellowship em duas shadow phases. Não fossem os seis companions, ele teria demorado muito mais para controlar os sites, e eu poderia ter sobrevivido mais tempo, melhor, e poderia ter exercido mais pressão com a shadow.
Como eu fiz exatamente o que ele não queria: contrariando o que se espera de um deck de ents, contra o sarumanderson naquela ocasião eu decidi apostar em uma mudança tática bastante arriscada: frente ao primeiro sinal de besiegers, no site 2, eu decidi não baixar mais companions. Já estava com cinco, os starters Gandalf e Huorn, e também Lindenroot e Skinbark. Nitidamente, abaixo da força potencial do deck, mas com a vantagem de deixar o oponente inquieto, esperando pela explosão de twilights e companions que, após o site 2, nunca apareceu. Ao invés de travar a mão com companions extras, eles foram descartados para ativar o unhasty do Lindenroot, mantendo a fluidez da mão e a shadow dele sob controle. Resultado: ele demorou muito mais do que o normal pra conseguir controlar sites, e eu venci essa partida, não consigo lembrar se correndo com a fellow ou obrigando ele a correr contra a minha shadow (que tinha foco em shadow kill, não em parar nem em corromper). O fato é que manter a fellowship pequena, mesmo contra a sua natureza, foi fator crucial na partida, que se não me falha a memória decidiu o torneio a meu favor.
Esse foi um caso extremo, e poderia muito bem ter dado errado, mas ilustra claramente como uma mudança tática pode ser adaptada à estratégia do deck, de modo a garantir que o oponente seja privado daquilo que ele mais deseja. A experiencia anterior, o conhecimento sobre o arquétipo, e até mesmo as opções de deckbuilding são também fatores importantes para que uma decisão dessas seja antes um risco controlado do que uma loucura irresponsável.
Segundo caso - vs. Danilo Mendes no EIRPG 2008 (? ou 2007?)
Mendes jogava com uma fellowship maluca e imprevisível, bastante fiel à sua característica, com shadow de Dunland. Eu jogava com meus Hobbits com Saved From the Fire, shadow Uruk Tracker.
A situação foi a seguinte: eu andava na frente, por opção minha, e estavamos ambos parados no site 5. Eu movi para o 6 com a fellowship quase intacta, ainda que bastante prejudicada por um Too Long Have These Peasants Stood, que descartou todas as conditions da mesa no site 2.
Meus companions: Frodo 12 Resistance + Anel de Ages End, Sam Great Elf Warrior, Bilbo Aged Ringbearer, e talvez Smeagol Slinker e Gandalf Leader of Men, não lembro mais.
Apesar de ter pontos suficientes para baixar dois a três minions, Mendes optou por baixar apenas o Hillman Horde, o general do deck, ainda que sem os 3 sites controlados necessários para torná-lo fierce. Apenas um minion com 14 de força, e muitos pontos sobrando, no site 6.
Como eu identifiquei o que ele queria: de duas formas: jogando muito tempo com e contra dunland, e jogando muito contra o próprio Mendes. Por não ter conseguido combar naquele site 6, ele queria perder o menor número de minions possível num site em que ele tinha certeza que eu pararia para curar, e, ainda assim, colocar pressão o suficiente para que eu não arriscasse o double move contra a mesa vazia. Eu já havia descartado o Constantly Threatening, então esse risco não havia, a menos que ele usasse duas (no fim das contas, ele me disse que usava mesmo duas). Havia um site controlado e algumas Hides, o suficiente para assustar qualquer jogador, afinal um Freca e um Hillma Tribe já dariam a ele os 3 sites necessários para o fierce coletivo. Resumindo, a jogada dele foi muito inteligente, um truco, praticamente.
Como eu fiz exatamente o que ele não queria: como eu não estava muito certo de que a minha shadow seria suficiente pra vencer o jogo, a essa altura eu já apostava em uma corrida da fellowship para o 9. Ao ver a jogada do Mendes, e fazer a leitura do que havia ocorrido na cabeça dele, optei por dobrar para o site 7, ignorando a cura do santuário (nesse deck, Bilbo e Smeagol não tomam danos, e os outros companions têm muita vida. A questão, então, evoluiu para: como fazer o double move (que ele não queria que eu fizesse) de maneira a minimizar os meus riscos de tomar uma volta catastrófica no site 7.
Mendes tinha algumas hides na mesa, com alguns pontos sobrando, o que garantiria a prevenção de danos. Pra poder dobrar tranquilo, apenas descartando o Hillman Horde. Sobrou a opção overwhelm, mas o número de tokens na Sudden Fury não era suficiente... foi então que me ocorreu uma jogada inusitada, e comecei a fazer contas:
hillman horde = 14 de força
2 x 14 = 28 < (9x3)+3
Para dobrar o Hillman Horde, usando o poder do anel apelão de Age's End, eu tomei 9 burdens = 27 de força, com os 3 do Frodo = 30 de força. Ainda que ele tivesse um Burn Every Village, eu poderia tomar mais dois burdens, ficando com 11, e ainda assim daria overwhelm no Hillman Horde (lembrando que o Frodo tinha 12 de resistência, e que dunland não usa burden pra absolutamente nada).
No fim das contas, ele não tinha o pump, eu tomei 9 burdens (o que não seria tanto problema pq o Bilbo tira dois a cada skirmish, e os minions dele com frequência ficam fierce, e se tudo desse errado eu ainda tinha o Sam como ringbearer reserva), o hillman horde morreu e o double move foi tranquilo. A jogada foi decisiva para a partida, que me valeu o título do campeonato. Como eu disse no início desse exemplo, o conhecimento sobre como funciona uma shadow de Dunland, tanto do lado de quem bate quanto do lado de quem apanha, foi crucial, mas não suficiente. A repetição de duelos contra os mesmos adversários (Mendes é figurinha fácil na Mangazine) ajuda na leitura das jogadas, dado que todo jogador, por mais imprevisível que seja (e o Mendes é, muito), tem o seu padrão de jogo, o seu modo de pensar e agir. Com o tempo, isso fica mais e mais claro. Não quer dizer que eu sou capaz de ler todas as jogadas dele nem de ninguem, mas naquelas em que é possível deduzir a chance de erro diminui cada vez mais.
Mas e aí?
E aí que a partir desses três exemplos eu procurei demonstrar o quanto a jodada ideal pra você pode estar próxima àquela que é a mais imprevisível e a menos desejada para seu oponente. Pra poder usar essa técnica adequadamente vc precisa, antes de mais nada, saber identificar o que ele quer. Precisa, também, ter clareza de quais são as suas opções e qual o limite delas. Isso traz uma preocupação extra para a etapa de deckbuilding, visto que desde a concepção do deck a busca por alternativas têm que estar presente.
Cabe também uma ressalva: nem todo jogo é tão rico de opções que te permite fazer algo fora do comum, extraordinário, e às vezes, a melhor jogada é a única jogada, e inventar moda de maneira irresponsável, sem calcular cuidadosamente os riscos, pode ser fatal. Quanto a esse ponto, creio que só com muito treino para aprimorar o faro e separar as oportunidades de surpreender dos momentos de fazer o feijão com arroz.
Esse post me fez pensar em escrever algo mais específico sobre deckbuilding.... é incrível como uma etapa tão importante possa ser tão subestimada pela maioria dos jogadores, mais atentos ao metagaming e à tática intra-jogo do que ao momento anterior. Um deckbuilgind bem feito, criativo, inovador, pode resolver muitos problemas, enquanto um deckbuilding preguiçoso, feito no google, pode mascarar uma série de vícios.
Por hoje é só...
Game on!
Abs,
Ótimo post, eu sei que pode parecer estranho, mas jogamos já faz tempo e jogar LotR é bem tático, prever a próxima jogada do adversário é essencial. Ontem mesmo eu estava jogando com o Mendes e eu reparei isso, exatamente contra essa shadow clássica de Dunland, na verdade as shadows de Dunland e Moria variaram muito pouco no decorrer do tempo e isso as deixaram previsiveis, em poucos sites você consegue saber qual é o tipo de estratégia essas shadows estão utilizando (por isso que eu gosto mais de jogar de Sauron, devido ao pool de cartas maior e maior estratégia na construcão de decks). Quanto a essa estrátégia de fazer o que o adversário não quer que você faça, ela é boa, mas requer um cuidado absurdo, todos os calculos devem ser bem analisados, eu, nas vezes que tentei fazer isso, poderia dizer que cerca de 30% delas eu me dei bem, nas outras essas escolhas acabaram me prejudicando, não no monento, mas depois, no decorrer do jogo. Sou um pouco mais cauteloso quanto a isso, mas eu tento, as vezes.
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